sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Diário dos Apóstolos Pt I.

Corpos pendurados no açougue, tornaram-se carcaças sepultadas, rejeitadas como uma criança retardada em uma família de políticos americanos.
Eu sou o suor frio e a vida desperdiçada destes corpos.
I.
Fiz um boneco. Meu boneco faz tudo que quero por mim. Não preciso pecar. Sinto prazer ao ver ele estuprando e agredindo as duas garotinhas que carregavam seus livros de biologia. Elas choram. Elas anseiam por prazer ao me verem masturbando por elas. É o choro divino, o choro do pecado. Putas querendo sentir o prazer do meu pênis em suas bocas inóspitas e sujas, pecadoras. Faço-as pecarem, pois merecem o mais quente do inferno. Mas a baba que cai das bocas me enoja como um cachorro raivoso, doente e moribundo, e assemelham-se a vermes, rastejando por mais prazer e sêmen. Sinto raiva. Quero matá-las, mas me tornaria como elas. Imploram por perdão aos meus pés. Sob a luz de uma solitária lâmpada, eu olho para baixo e sussurro "não". Sou a semente de Deus. Vida eterna é o meu destino agora.
II.
É um dia comum. Acordo e rezo para a agradecer a Deus por estar vivo e fora daquele lugar. Saio de casa para ir trabalhar na clínica. É um dia chuvoso. Enquanto espero pelo ônibus, observo o boeiro transbordar e fazer com que os vermes se afoguem em sua imundice. Ele chega, é um antigo modelo 1313, entro e atravesso a multidão até poder me sentar em um assento no fundo do ônibus onde não havia ninguém. O cheiro do lugar é horrível, cheira como o esperma de uma criança mimada e solitária que acaba de se masturbar com a calcinha de sua mãe. A podridão do lugar faz com que eu desvie meu olhar para a janela, habitada por um retrato de um hospital de doentes mentais. Não há imagem mais macabra. Meus olhos resistem a olhar e desviam de direção novamente. Garotas no colegial, elas carregam seus livros, estão todas enfeitadas como pela espera do acasalamento. São baratas humanas, deviam se afogar como todos os outros vermes. Penteio meu cabelo e tento me acalmar. Não parece funcionar. Meu pulso começa a acelerar e começo a ter um dos meus ataques de pânico. Fecho os olhos e começo a esfregar minha mão em meu rosto.
III.
Abro os olhos. Olham para mim. São duas. Duas pessoas deformadas e de humilde aparência que apareceram do meu lado. Quando vi o crucifixos em seus pescoços, senti nada mais do que respeito e os cumprimentei. Chamaram-me para descer e dar um passeio com eles. O dia estava bonito e o trabalho podia esperar. Enquanto andava, sentia falta do meu boneco. Não encontrava o porquê, talvez não houvesse. Seguiamos por lugares que eu nunca havia visto mas pareciam familiares. Me senti confortado por isso. Entramos em um túnel. Estavam mais a frente de minha, perto de uma lâmpada que era nossa única companhia no local. Havia uma só lâmpada. A lâmpada os iluminava graciosamente, tanto que me levou a pensar que eram a imagem da luz, a imagem branca, que iluminava a escuridão, o negro, deste túnel. No fim dele, estavam elas. Tentava chegar perto mas a luz me fazia companhia ao apagar conforme eu me aproximava.
IV.
Acordei perto de minha casa faltando partes de mim. Não me encontrava em meu rosto. Algo terrível aconteceu. Comecei a correr e buscar por ajuda. Eles tentaram me atropelar, mas eu consegui pular. Tenho certeza que havia um plano maior para isso. Eu devia aceitar. É tudo parte de uma escrita mestre. Eu vou aceitar. Vou seguir por esse caminho e atravessar as serpentinas negras para encontrar com o profeta e o remador. Chamei meu boneco e o pedi para roubar o ônibus que eu avistava. Atrair a atenção para ele e me livrar do mal, amém. Não sabia se outras pessoas estavam no ônibus, não importava. Era parte de um plano maior. Eu corri para longe, afastando-me de tudo que havia de mal por ali. Meu boneco entrou nele e seguiu. Atropelou o hospital de retardados e todos que estavam em seu caminho. O ônibus parecia se esgotar, se esvair. Antes que desaparecesse, eu desci e encontrei com meu boneco, que estava correndo por ali. Tentei me esconder, mas meu boneco disse que não, que fazia parte do plano. Os policiais chegaram e me algemaram. Estava sendo preso, sem razão alguma. Não cometi nenhum crime. Entrando no carro, vi os deformados. Gritei para não me prenderem com eles, mas não me escutaram. Disseram que não havia ninguém. Enquanto me empurravam para o carro, o medo me contaminava. E, quando não havia nada ali dentro além de escuridão, tudo que eu pude pensar era "Como eu fui parar ali?".