1.
Janelas fechadas. Cortinas barravam a visão. Os sons pareciam abalar as estruturas que me davam suporte. O medo se instalava por todos os lugares da casa. Não havia luz, não havia beleza. Não havia o que se conhecer, não havia brilho. Não havia nada além de escuridão. 2.
Procurava por algo novo, algo que me evitasse temer. Algo que me fizesse recuperar o alento. Não parecia existir caminho sem que me esvaziasse. Pensamentos extraordinários vagavam nos corredores da minha mente, como em um ciclo sem razão. Talvez o fantástico fosse o que não pensei por não querer derramar pensamentos em dúvidas e incertezas.
3.
Talvez fosse tudo por um objetivo. Talvez eu devesse sentir medo. Talvez a certeza da dúvida fosse a única certeza. Enchia-me de talvez. Não havia por que pensar. Minha mente adormecia. Vagava pela casa.
4.
Vi alguém. Não o conhecia. Seguia-me através da visão. Olhava-me como se sempre tivesse me conhecido. Perguntei a ele o que achava sobre a realidade, sobre as dúvidas e o quão necessárias elas seriam para o pensamento. Ele me fez as mesmas perguntas. Senti-me sem travesseiro e o deixei.
5.
Deitei e pensei sobre as perguntas. Eram como ofensas. Percebi que sentia fome ainda que cheio e isto era um insulto a mim. Eu havia me alimentado, mas de vazio. Percebi que o brilho existia pois minha mente se adormeceu por tanto tempo que se esvaziou. Deixei meus pensamentos pairarem sobre a dúvida e, por isso, nada poderia me abalar. A fome não pode acabar. Ele havia me levado à introspecção. O vazio leva ao brilho. Portanto, começava a aceitar a escuridão.
6.
Ainda chovia. O medo voltava a invadir. Procurei não evitá-lo, aceitar o medo de haver medo. Permiti sua invasão em mim. Indiferente, como se já existisse. Buscava entender os seus conceitos. Conceitos baseados no desconhecimento ou no medo do conhecimento.
7.
Sem permissão, as gotas de água batiam contra a janela, como se quisessem entrar. Como se quisessem me tocar. Senti o medo do contato e busquei enfrentá-lo. Abri a cortina. Empurrei a cama para perto da janela e a abri. Os pingos d'água tocavam meu rosto. Escorriam pelos corredores de minha pele como se me alertassem. Pareciam cair e comigo deixavam os seus restos. Senti somente o que podia sentir. Medo da semelhança.
8.
Tentei me apoiar janela e olhei para baixo. Foi quando um som me provocou pavor. Senti como se fosse deixar de existir. Morrer. Tudo parecia estar coberto de escuridão, mesmo que os véus tivessem sido descobertos. Aceitei essa condição. Saí da janela e me sentei no canto do quarto. Pensando. O tudo não é o suficiente nem que tudo seja algo qualquer. Não existe suficiência. O tudo é o nada e nada mais vazio do que o natural.
9.
Levantei e busquei por aquela pessoa. Procurei pela casa e não a achei. Imaginei que estivesse no lugar onde se vê o que já se viu e lá estava ela. Perguntei sobre o medo, sobre sua existência natural. Perguntei sobre a escuridão. Novamente, fez-me as mesmas perguntas. Tentei entendê-lo sem entender.
10.
Insistentemente, perguntava a ele o que achava de tudo. Não importava para mim o que ele pensava. Eu só queria que ele me fizesse pensar. Parecia não importar para ele o que ele pensava. Pensando, lembrei do vazio. O vazio é o início do medo. O vazio é a existência.
11.
Abandoná-lo, foi tudo que pensei. Enquanto o deixava, sua imagem se esvaía. Apagava-se da minha consciência e desaparecia da realidade. Era como se fosse um ser efêmero e onisciente criado por mim e para mim.
12.
Foi quando percebi. Ele me levou ao eu. Fez-me ver que tudo era eu. Tudo era tudo somente a mim e a mais ninguém. O medo nascia dos meus pensamentos, mas eu já aprendera a conviver com ele. O pensamento que nasce do medo é o fruto que eu evitava, é o fruto da irracionalidade.
13.
Não há ninguém além dele e eu. Assumiu uma forma em minha mente e, nela, não me fazia as mesmas perguntas. Incentivava-me a perguntar e a responder. Tornou parte de mim. Era eu.